A cápsula do tempo

Por Mariana Spadotto Pavão

Semana passada minha filha Amélia de três anos trouxe da escola uma atividade para realizarmos em família. Em razão da comemoração de cinco anos de inauguração da escola que ela frequenta seria feita uma “capsula do tempo” a ser aberta em vinte anos. A proposta para a família era escrever os nossos desejos para nossa filha em sua vida pessoal e profissional daqui a vinte anos. Na atividade ainda havia um espaço para a criança fazer um desenho e campos com os dados pessoais para que quando a capsula for aberta, os alunos possam ser localizados.

Assim que peguei a atividade em mãos, ao meu olhar de pedagoga, achei muito interessante. Fiquei muito feliz com a iniciativa da escola, em fazer esse trabalho com as crianças, já que abre-se uma gama de possibilidades de trabalho pedagógico com as turmas. Porém, quando peguei a caneta e ia começar a escrever comecei a pensar “o que eu realmente desejo para ela?”            Comecei a pensar que muitas vezes idealizamos tantas coisas para nossa vida com os filhos. Idealizamos a gravidez ideal, o parto dos sonhos, o bebê bonzinho que dorme a noite toda, os seios que jorram leite e aquela cena de comercial de incentivo ao aleitamento materno com a atriz maquiada e penteada. Idealizamos o bebê raspando o prato de berinjela com arroz integral, os primeiros passos no dia do aniversario de um ano, zero intervenções médicas e tagarelando sem parar o mais cedo possível.

E então o tempo passa e descobrimos que na vida real nem tudo são flores. Descobrimos que o que idealizamos nem sempre é o possível, e que o ideal, na verdade, fica muito longe da imagem que tínhamos na cabeça. Percebemos que o amor que construímos a cada dia, a cada etapa alcançada (ou vencida) é o que importa! Que ver seu filho dar aquela gargalhada gostosa depois que acaba de derrubar (sem querer) um prato de comida no sofá é muito mais legal que ter a casa brilhando.

Percebi, assim, que meus desejos para ela eram mais simples do que eu imaginava. Que apesar de simples, continham toda a carga de amor possível, e que vinham do que eu sentia de mais profundo e sincero. Carreira de sucesso? Casamento de luxo? Dinheiro para esbanjar? Nada disso! Peguei a caneta novamente e deixei fluir meus sentimentos de mãe.

Querida filha,

                        Desejo para seu futuro que você seja feliz e livre. Que possa encontrar um trabalho em que se realize, mas caso não se sinta bem com a escolha, que tenha liberdade para escolher se dedicar a outra coisa no momento que quiser. Que seja livre em seus relacionamentos, que possa amar e ser correspondida na mesma medida, se relacionando com pessoas que te tratem bem e te façam se sentir bem. Que seja capaz de procurar e que encontre o que te faz feliz e plena. Tentarei estar sempre ao seu lado, para o que precisar. Mas, caso não possa, que tudo que transmiti para você sirva como norte em suas escolhas, pautadas em ética e respeito.

Te amo muito!

Mamãe.

Foi incrível como me senti leve depois de ter escrito essas palavras! Poderia ter colocado tantas outras coisas, que não iam deixar de ser desejos reais, mas fiquei pensando também na carga de responsabilidade de colocamos sobre nossos filhos. Ainda que sejamos nós que decidimos a maioria das coisas por eles enquanto não têm capacidade para isso, precisamos mostrar à eles desde cedo que cada pessoa é responsável por suas escolhas e irá colher os frutos, bons ou ruins, dependendo do que semear,

E assim, o que resta aos pais é confiar na educação que ajudamos a criança a construir e esperar que, mesmo que ventos sejam semeados na vida adulta, sua casa seja forte o bastante para aguentar as tempestades que poderão surgir.

 Mariana Spadotto Pavão é pedagoga, especialista em moral e ética infantil, e atua como professora de educação infantil de carreira há quase 10 anos. Desde que se formou trabalhava em período integral, se dividindo entre duas escolas em uma rotina meio louca para dar tempo de tudo. Quando engravidou da Amélia, em 2014, decidiu abrir mão de uma das escolas em que trabalhava e passou a trabalhar meio período para maternar exclusivamente no tempo restante, acompanhando de perto o desenvolvimento da filha. Agora que o Bento, seu segundo filho, chegou, ela resolveu empreender também.

About the author: Lia Castro

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