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Texto de Paulo Emerique**



Há alguns anos, fui convidado por uma escola para uma palestra sobre o Dia dos Pais.

Na entrada havia uma exposição com trabalhos dos alunos e uma frase numa cartolina chamou minha atenção: Ser pai é uma tarefa difícil; ser filho, nem se fala! E este se tornou o tema daquela nossa conversa...


Recentemente, na comemoração deste dia na minha pré-escola, repeti aquelas palavras e depois perguntei a alguns pais presentes: na atualidade é mais difícil ser pai ou ser filho?


A maioria das respostas reconheceu que os pais estão preenchendo o seu tempo com muitos deveres e negligenciando o contato com os filhos, que acabam pagando a conta dessa correria louca dos adultos.


E se aqueles com quem interagimos mais tempo são agora o celular e o computador, pensei em retomar aqui esse diálogo com os pais a partir desta ideia:o único arquivo pelo qual podemos acessar novamente nossos filhos é o lúdico, o faz-de-conta, a brincadeira, o mundo da fantasia.


Mas cabe reconhecer uma dificuldade: aprendemos a ter muita afinidade com a seriedade (fala sério!) e pouca familiaridade com o brincar (você só pode estar brincando, largue de ser criança!).


Na nossa relação com a criança, alguém tem que ser o adulto, e isto cabe somente a nós. Mas todo adulto é capaz de lembrar-se da seriedade com que se dedicava de corpo e alma às brincadeiras infantis.


O contrário é impossível: a criança não é adulto e não pode praticar ainda o jogo sério dos maiores de idade e menores de imaginação. 


Portanto, a única ponte que pode ser atravessada por pais ou professores em direção aos filhos ou alunos e possibilitar seu reencontro é o brincar. 


Um pai me disse que seu trabalho exige que ele esteja por dentro dos acontecimentos e então, quando volta para casa, vai assistir aos noticiários da TV.


Segundo ele, o problema (não seria a solução?) é que seu filho fica na frente do aparelho e chega a desligá-lo, daí recebe a ameaça: está querendo apanhar, menino?


Não, ele só está querendo um pouco da sua atenção neste final de dia (pai, vem brincar comigo?) e você vai ter de decidir se, para você, o Bonner é mais importante que ele...


Os psicanalistas já apontaram: não há nenhuma atividade significativa para a criança que não passe pelo brincar.


Neste, o essencial é a negação da regra, o sair do piloto automático, o abrir-se para o novo e o incerto, fazer algo “porque sim”, sem utilidade imediata, pelo simples prazer da ação. Como escreveram Leif e Brunelle: “o adulto brinca desde que se permite não mais dever o que vai começar a fazer”.


Então, se o pai tem pouco tempo porque chegou do trabalho e logo vai sair para a faculdade, a ocasião para o imaginário é a hora do jantar e o seu espaço será a mesa da cozinha, onde os talheres poderão se tornar as asas de um prato que virou disco voador, do qual os legumes alienígenas saltarão direto para a boca dos que tem fome de brincar!


Sem falar do canudinho do copo de suco de laranja que agora é uma varinha mágica que nada do que toca continua o mesmo e tem o poder de transformar cada familiar num mágico que faz sumir um tanto da comida, engolindo-a, ou no palhaço que pinta seu nariz com o vermelho da beterraba...


Respeitável público, vai começar o espetáculo! Aonde foi que nos esquecemos desse encantamento e caímos na realidade nua e crua?

“Para amadurecermos precisamos recuperar o entusiasmo com que brincávamos na infância”, falou Niestzche. 


Quando pergunto aos pais sobre o que queremos para nossos filhos, a resposta mais frequente é esta: que sejam felizes! E alguém se lembra de que a caça ao tesouro era mais emocionante que sua descoberta, quando a brincadeira chegava ao fim?


Então vamos começar de novo? E não basta dar um brinquedo ao filho e dedicar-se a outras tarefas, pois o brinquedo deve ser o mediador desta relação e não o substituto do vínculo, do companheirismo, da parceria, estimular a aproximação e não o afastamento.

E se você ainda acha que “brincadeira tem hora”, seu filho está te perguntando: “que tal agora”?


Então, não recuse esse convite, aprenda e divirta-se com essa criança que quer ser acessada aí fora e também dentro de você mesmo... 


** Paulo Sérgio Emerique é Educador, formado em pedagogia pela Universidade Mackenzie, psicanalista e doutor em psicologia pela USP. Foi professor, orientador e pesquisador das Universidades FMU, UNESP e UNIMEP. É palestrante e criador dos cursos "Jogaprende" e "Joganálise", ministrados em seus workshops para professores, pais e pedagogos. É autor do livro "Brincaprende - dicas lúdicas para pais e professores", da Editora Papirus.​ É diretor da Escola de Educação Infantil Bem-te-vi, em Piracicaba-SP.

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